FASCÍNIO
A sala está gélida, e as cores ao meu entorno, pálidas. Nada me motiva a levantar deste sofá velho e gasto em que estou repousado há, aproximadamente, 4 horas. Minha vida está nublada; o tempo fechou e parece não haver previsão de abrir. Estou cansado - e fisicamente é que não haveria de ser, pois estou me abstendo das minhas práticas habituais nos últimos dias. Não sei se posso expressar bem o que sinto, mas é um cansaço mental, a falta de forças até para pensar, um abismo emocional. Não sei se me faço entender; porém, é possível que passe a entender a partir do meu relato sobre o que acarretou o meu presente estado de espírito.
Casei-me logo aos 20 anos, após 2 anos ao lado de Luiza. Esta sempre me deixou fascinado, boquiaberto com tamanha delicadeza e singularidade. Até hoje, quando escuto seu nome, ele me soa o mais doce que já conheci - e, como é de se imaginar, já conheci muitos nomes durante os 30 anos em que já vivi. Ainda sou deveras apaixonado, e seria capaz de prostrar-me aos seus pés... Aí está a raiz do meu problema: minha adoração exacerbada.
Assim como eu percebo a beleza e os encantos de minha esposa, as pessoas que cruzam seu caminho têm a mesma percepção. Homens olham e se aproximam, e isso me machuca, me destrói. Não devo afirmar que em todos eles haja má intenção e olhares de cobiça, mas não sei distinguir. Salvos meu pai e o padre da Igreja que ela freqüenta, qualquer homem que chega perto de Luiza me desperta ciúmes. Essa paixão doentia me consome há anos, e sempre tentei me controlar, por saber que isso faz um mal absurdo a qualquer relação. Nos últimos anos, não me contive o suficiente e o nosso casamento foi se desgastando. Os primeiros anos foram lindos, la vie en rose. Eu engolia o ciúme com muito mais facilidade, e isso foi apresentando uma crescente dificuldade, até que eu me descontrolei. Passei a desconfiar muito mais de tudo e todos, inclusive dela - muito injusto, aliás, de minha parte. Luiza nunca me deu motivos para tal. Pensava sempre muito antes de agir e muito me respeitou. Ela era mulher paciente, mas eu consegui acabar com a sua paciência, de tão errônea que foi minha conduta nos últimos tempos.
Minha esposa saiu de casa e voltou para a dos pais. Ah, Luiza minha, que falta me faz! Alegou não agüentar mais, não merecer o meu destrato sem motivo concreto, e tinha toda a razão. Só depois de uns 3 dias que ela foi embora que pude perceber isso, pois, antes disso, ela me parecia errada em querer fugir de mim. O arrependimento me acompanha, mas sei que se ela voltar, eu continuarei a agir daquela forma, pois o ciúme ressurge. Sendo bem sincero, penso sempre se ela vai desistir de mim, encontrar alguém melhor que eu. Meu coração palpita e sinto que vou explodir, isso acaba comigo.
Não sabendo o que fazer, ficamos aqui no sofá, eu e minha mente doente. Não quero me estender, não sinto vontade. De nada, aliás.
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